Látex y sémen
Don Javier Ercarnación de la Imaculada Concepción Juez y Ruiz, o maior miúra de Cabezón de Pisuerga e Valoria la Buena quiçá de León. Rompante tonelada e meia, cascos cravados e pelame tão vasto e negro quanto a culpa dos castelhanos e tão reluzente como o sol outonal que estoura na beirada da Plaza de Toros. Monumento incontornável de chifres esmaltados pelo rubro e denso sangue de tolos picadores e pelo encarnado e ralo sangue de meninos, donzelos ainda, com mais ousadia que siso que em datas lamentadas o desafiaram à guisa de demonstrar culhões e ganharam em troca umbigos extras em seus tenros ventres perfurados.
Don Javier, touro total, de parcos cinco anos e de quinhentos filhos por gerados por cientificamente Imaculada Concepção que nos prados ariscos aspira o olor viscoso das vacas e suas vulvas ávidas e que acabava-se de ir nas vaginas bovinas de látex por onde recolhia seu precioso sêmen a mão frouxa de Firmín.
Firmín de nada não senhor, filho lá de algum lugar de cuja mancha não querem acordar. Firmín el pelirojo, de cabelo vermelho, pela desgraça de deus humilhado, pelo escárnio dos homens riscado, pelo riso das muchachas desprezado. Firmín, Firmín flaquito y frouxo que devia ter se contentado em tirar o leito dos touros na hacienda e que contudo e contra tudo agora está envergando a lança de matador, morrendo de vergonha e escolhendo entre a morte súbita, a perpetuidade do escárnio geral e a obrigação de enfrentar esse destino amargo, esse touro imenso que lá vem — e que por raiva da cadela da Providência é esse mesmo touro que tanto esporrou na sua mão, esse que não é menos que o maior dos miúras de Cabezón de Pisuerga e Valoria la Buena e quiçá de León, o touro Don Javier Ercarnación de la Imaculada Concepción Juez y Ruiz.
Don Javier que irrompe pela arena, tufão nas narinas, cascos faiscando pedregulhos, ouvidos lancinados pelos apupos da platéia — ¡Toro mata ay, toro mata! — e que percebe, mal sustentando as vestes em celeste e dourado a carne pouca e os cabelos encarnados dele, do frouxo Firmín.
Firmín que já era de nada, que agora é menos ainda, ponto perdido sobre a areia parda, empunha a lança e ora para que Nuestra Señora de la Buena Muerte ao menos faça com que um de seus órgãos vitais (não o sexual, que esse é inútil) seja atravessado de modo rápido e indolor pela lâmina dos chifres desse cruel toro, Don Javier.
Don Javier que arde a raiva ritual dos touros contra o toureiro, contra a capa rubra, contra a cabeleira encarnada, esta besta que calcina a areia da arena em raio para expurgar da vida aquele que ousou estar diante dele, aquele ser que quase não é, o pelirojo Firmín.
Firmín que, conformando-se findo, enfim destila as humilhações que sofreu num último caldo espesso de raiva que lhe dá seiva para levantar a espada e assim quiçá trespassar em metal a cabeça infinda dessa besta que tantas vezes lhe fodeu a mão, esse que é Dom Javier.
Esse Dom Javier que zunindo para aplainar Firmín como a um trevo do prado sob seus cascos e que — ¿que?… súbito arrebatamento dos ventos — é baforado pelo tenro olor plastoso, esse mesmo cheiro que lhe abre idéias de cálidas vulvas das vacas e que — aleivosias do sexo e do olfato — sente por aquela coisa frouxo de cabelos encarnados e mãos tenras um carinho raro em que estão mesclados látex e suor e esperma e capim. E esse carinho é o que o detém.
E para. E para Firmín olha.
E Dom Javier tonelada e meia de touro está postos à frente desse de cabelos vermelhos, espada na mão, escárnio às costas, esse Firmín.
E Firmín aperta a lança com a urgência dos vingadores.
E Dom Javier expõe sua jugular à mercê da espada de Firmín. E lhe vem taurina ereção.
E Firmin não suportando o presente que a Providência, ¡essa desgraçada!, lhe dá, mira, apruma e vai enterrar a espada contra o pescoço eterno daquele touro, aquele Dom Javier.
Esse Dom Javier, que desvia com os chifres a espada, que investe contra Firmín, que joga o matador pelos ares, que calca seus cascos sobre suas pernas finas e que escolhe no derradeiro instante não matar a mão em que fode e que crava enfim as pontas dos chifres sobre a sarja cerúlea varando rasgão nos flancos flácidos e róseos de Firmín, que nunca seria mais que apenas Firmín, o pelirojo, o desprezado, até que Nuestra Señora de la Buena Muerte viesse lhe resgatar dessa sina de humilhação (e isso seria só depois de muitas e muitas tardes desgostosas a recolher o sêmen do incontornável touro Don Javier Ercarnación de la Imaculada Concepción Juez y Ruiz, maior miúra de Cabezón de Pisuerga e Valoria la Buena quiçá de León).
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