Uma foto premiada<?xml:namespace prefix = o ns = “urn:schemas-microsoft-com:office:office” />
Nunca imaginei conseguir tal resultado. Há anos tentava uma foto que me desse notoriedade e fizesse a diferença em minha carreira que já está para lá da metade. Não me falta experiência, talvez não me tivesse sido exposto o objeto certo, ou eu não o tivesse identificado nas minhas andanças.
Mas foi em viagem a Portugal, quando andava na região agrícola dos vinhedos, que me deparei com a mulher. Eu a vi de costas. Era miúda, cabelos escuros presos em trança, e sustentava no ombro um vasilhame laranja de fertilizante orgânico composto da marca Pluma. Apertei o passo e, tomando-lhe a frente, tive enorme surpresa ao ver-lhe o corpo.
Puxei conversa, falei meu nome e disse-lhe que vinha do Brasil em busca de uma foto surpreendente e pedi-lhe para posar, ser a modelo. Quase não resisti à intenção de perguntar se alguma vez ela tomara o tal fertilizante. Explico-me: a mulher tinha os maiores peitos que já vira em toda minha vida, tamanho descomunal e forma arredondada das maiores barrigas. Era muito grande o volume que fazia sob a blusa e, temendo ser mal interpretada, perguntei-lhe se era feliz tendo os seios tão grandes. Ela não só demonstrou orgulho como se prontificou a desabotoar a blusa. Disse-me que fazia enorme sucesso e que seus seios serviam de travesseiros a muitos homens carentes de mãe. E bem-humorada falava das experiências de ter seios tão incomuns.
Ficamos um tempo a conversar e minha intenção era criar o clima propício para a foto, criar a confiança e fazê-la ficar à vontade para ter o resultado que eu imaginara conseguir. Ao sentir que nos entendemos, dei-lhe as primeiras instruções.
Pedi-lhe que sustentasse no ombro o vasilhame, segurando-o com a mão de seu braço esquerdo. Pretendia retratar um instantâneo que revelasse a sua labuta, sofrimento e aquela deformação. Pedi-lhe, ainda, que com a mão direita levantasse o peito direito, dizendo-lhe que era para dar impressão de equilíbrio entre os dois lados do corpo. Mas não falei tudo o que devia, pois ao disparar o flash, um sorriso se abriu naquele rosto, que nem era belo e o seio direito fora levantado como um troféu.
E agora estou diante do resultado e, frustrado, porque mais uma vez, talvez, não ganhe nenhum concurso ou prêmio. O máximo que pude obter foi a visão de uma mulher que tem um sorriso de dentes brancos, que transparece confiança e orgulho. Talvez uma Monalisa camponesa, que nem se importa com o fertilizante que lhe pesa no ombro, mas não lhe pesa na consciência, e tampouco com os peitos enormes, inesquecíveis, mas que não lhe parecem feios ou lhe causem embaraço. Não fora aquele sorriso tranqüilo e eu teria um pouco mais de esperança.