Mabangas, jegues e assemelhados

Foto premiada

Maio 28, 2009 · Deixe um comentário

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Nunca imaginei conseguir tal resultado. Há anos tentava uma foto que me desse notoriedade e fizesse a diferença em minha carreira que já está para lá da metade. Não me falta experiência, talvez não me tivesse sido exposto o objeto certo, ou eu não o tivesse identificado nas minhas andanças.

Mas foi em viagem a Portugal, quando andava na região agrícola dos vinhedos, que me deparei com a mulher. Eu a vi de costas. Era miúda, cabelos escuros presos em trança, e sustentava no ombro um vasilhame laranja de fertilizante orgânico composto da marca Pluma. Apertei o passo e, tomando-lhe a frente, tive enorme surpresa ao ver-lhe o corpo.

Puxei conversa, falei meu nome e disse-lhe que vinha do Brasil em busca de uma foto surpreendente e pedi-lhe para posar, ser a modelo. Quase não resisti à intenção de perguntar se alguma vez ela tomara o tal fertilizante. Explico-me: a mulher tinha os maiores peitos que já vira em toda minha vida, tamanho descomunal e forma arredondada das maiores barrigas. Era muito grande o volume que fazia sob a blusa e, temendo ser mal interpretada, perguntei-lhe se era feliz tendo os seios tão grandes. Ela não só demonstrou orgulho como se prontificou a desabotoar a blusa. Disse-me que fazia enorme sucesso e que seus seios serviam de travesseiros a muitos homens carentes de mãe. E bem-humorada falava das experiências de ter seios tão incomuns.

Ficamos um tempo a conversar e minha intenção era criar o clima propício para a foto, criar a confiança e fazê-la ficar à vontade para ter o resultado que eu imaginara conseguir. Ao sentir que nos entendemos, dei-lhe as primeiras instruções.

Pedi-lhe que sustentasse no ombro o vasilhame, segurando-o com a mão de seu braço esquerdo. Pretendia retratar um instantâneo que revelasse a sua labuta, sofrimento e aquela deformação. Pedi-lhe, ainda, que com a mão direita levantasse o peito direito, dizendo-lhe que era para dar impressão de equilíbrio entre os dois lados do corpo. Mas não falei tudo o que devia, pois ao disparar o flash, um sorriso se abriu naquele rosto, que nem era belo e o seio direito fora levantado como um troféu.

E agora estou diante do resultado e, frustrado, porque mais uma vez, talvez, não ganhe nenhum concurso ou prêmio. O máximo que pude obter foi a visão de uma mulher que tem um sorriso de dentes brancos, que transparece confiança e orgulho. Talvez uma Monalisa camponesa, que nem se importa com o fertilizante que lhe pesa no ombro, mas não lhe pesa na consciência, e tampouco com os peitos enormes, inesquecíveis, mas que não lhe parecem feios ou lhe causem embaraço. Não fora aquele sorriso tranqüilo e eu teria um pouco mais de esperança.

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Um programa diferente

Maio 28, 2009 · Deixe um comentário

Um programa diferente

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Assistia a uma tourada na Arena de Las Ventas, em Madri. Não por apreciar o espetáculo, mas para cumprir um ritual que tantas vezes nos impõe uma viagem, daquelas em que o programa vem pronto, o dinheiro é curto e já se paga pelas distrações a priori. Isto sem falar da curiosidade por beber a cultura alheia, que é o principal propósito de visitar terras desconhecidas. Mas confesso que uma primeira razão havia. Estava na companhia de uma espanhola, natural da Catalunha, que tocava castanholas e, dizem, pegava um touro à unha. É claro, que a mulher mexeu com meus brios. A vontade era de pegá-la à unha, de fazê-la dançar e tocar castanholas só para mim. Por essa mulher fascinante não me importaria ser o touro.

Estava no meio da multidão enlouquecida a ouvir os gritos de Olé! Avante! Olé, touro! E me via de frente com aquele toureiro. Ah, que bom se lhe pudesse ver as calças rotas e o corte que lhe fez sangrar o traseiro. O cheiro do sangue em suas mãos me dava vontade de avançar. Já tinham vindo os cavaleiros e me espetado o dorso.

Espetos certeiros como os negros olhos da mulher que também me feriram de paixão. Assim pensava, e via outras mulheres bem vestidas e homens de terno e gravata, como se presenciassem uma estréia de ópera, mas que desejavam a morte – do toureiro ou do touro.

Lá estava o touro, sendo chamado pelo toureiro principal, o da capa vermelha, posto que os das preliminares, os de capa amarela e rosa, já lhe tinham diminuído a energia, as bandeirinhas já lhe haviam fincado no dorso.

Em dor me enfurecia e mais gritavam e mais sofria e odiava essa diversão insana, que já me fazia antever o toureiro posicionando a espada atrás da capa. Se partir para cima do maldito, mesmo de traseiro rasgado, ele me fincará a espada no dorso e vou cambalear e cair.

Cair de amor por uma mulher que aprecia tal espetáculo, tal brutalidade, que incita à morte, do touro ou do toureiro, é mesmo de sangrar coração.

Se conseguir desviar, posso pegá-lo de jeito e com os chifres romper-lhe as tripas, não mais o traseiro. Tenho ganas de vê-lo sangrar até a morte. Vingança de touro ferido.

O povo grita e me faz investir. Vou aceitar os volteios da capa vermelha do toureiro das calcas rotas e traseiro também, embora as forças me escapem nas feridas que já me fizeram. Só não posso é cair e ficar agonizando no chão, esperando que alguém me enfie uma adaga entre os olhos e balance para os lados, quando imediatamente morrerei.

Olho a mulher espanhola, minha paixão de castanholas, olhos negros e amor pela morte do touro, e perco a cena final.

Lá está o touro sendo arrastado por cavalos, enquanto o toureiro da calça rota limpa a espada na capa vermelha.

O toureiro atira rosas vermelhas e uma delas é alcançada pela minha paixão espanhola.

Foi a última cena. Imediatamente acordo. O som da televisão muito alto lembrava, ainda, o barulho na arena. Esfrego os olhos. E mesmo estando no limite entre o sonho e a realidade, constato que adormecera durante a apresentação de um documentário sobre viagem de turismo a Madri e touradas na Arena de Las Ventas.

Dou graças a Deus por não ser o touro e lamento ter perdido aquela espanhola, a mulher que matava o touro à unha. Mas assim que puder faço viagem a Madri.

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Conto final (Julio)

Maio 28, 2009 · Deixe um comentário

Látex y sémen
Don Javier Ercarnación de la Imaculada Concepción Juez y Ruiz, o maior miúra de Cabezón de Pisuerga e Valoria la Buena quiçá de León. Rompante tonelada e meia, cascos cravados e pelame tão vasto e negro quanto a culpa dos castelhanos e tão reluzente como o sol outonal que estoura na beirada da Plaza de Toros. Monumento incontornável de chifres esmaltados pelo rubro e denso sangue de tolos picadores e pelo encarnado e ralo sangue de meninos, donzelos ainda, com mais ousadia que siso que em datas lamentadas o desafiaram à guisa de demonstrar culhões e ganharam em troca umbigos extras em seus tenros ventres perfurados.
Don Javier, touro total, de parcos cinco anos e de quinhentos filhos por gerados por cientificamente Imaculada Concepção que nos prados ariscos aspira o olor viscoso das vacas e suas vulvas ávidas e que acabava-se de ir nas vaginas bovinas de látex por onde recolhia seu precioso sêmen a mão frouxa de Firmín.
Firmín de nada não senhor, filho lá de algum lugar de cuja mancha não querem acordar. Firmín el pelirojo, de cabelo vermelho, pela desgraça de deus humilhado, pelo escárnio dos homens riscado, pelo riso das muchachas desprezado. Firmín, Firmín flaquito y frouxo que devia ter se contentado em tirar o leito dos touros na hacienda e que contudo e contra tudo agora está envergando a lança de matador, morrendo de vergonha e escolhendo entre a morte súbita, a perpetuidade do escárnio geral e a obrigação de enfrentar esse destino amargo, esse touro imenso que lá vem — e que por raiva da cadela da Providência é esse mesmo touro que tanto esporrou na sua mão, esse que não é menos que o maior dos miúras de Cabezón de Pisuerga e Valoria la Buena e quiçá de León, o touro Don Javier Ercarnación de la Imaculada Concepción Juez y Ruiz.
Don Javier que irrompe pela arena, tufão nas narinas, cascos faiscando pedregulhos, ouvidos lancinados pelos apupos da platéia — ¡Toro mata ay, toro mata! — e que percebe, mal sustentando as vestes em celeste e dourado a carne pouca e os cabelos encarnados dele, do frouxo Firmín.
Firmín que já era de nada, que agora é menos ainda, ponto perdido sobre a areia parda, empunha a lança e ora para que Nuestra Señora de la Buena Muerte ao menos faça com que um de seus órgãos vitais (não o sexual, que esse é inútil) seja atravessado de modo rápido e indolor pela lâmina dos chifres desse cruel toro, Don Javier.
Don Javier que arde a raiva ritual dos touros contra o toureiro, contra a capa rubra, contra a cabeleira encarnada, esta besta que calcina a areia da arena em raio para expurgar da vida aquele que ousou estar diante dele, aquele ser que quase não é, o pelirojo Firmín.

Firmín que, conformando-se findo, enfim destila as humilhações que sofreu num último caldo espesso de raiva que lhe dá seiva para levantar a espada e assim quiçá trespassar em metal a cabeça infinda dessa besta que tantas vezes lhe fodeu a mão, esse que é Dom Javier.
Esse Dom Javier que zunindo para aplainar Firmín como a um trevo do prado sob seus cascos e que — ¿que?… súbito arrebatamento dos ventos — é baforado pelo tenro olor plastoso, esse mesmo cheiro que lhe abre idéias de cálidas vulvas das vacas e que — aleivosias do sexo e do olfato — sente por aquela coisa frouxo de cabelos encarnados e mãos tenras um carinho raro em que estão mesclados látex e suor e esperma e capim. E esse carinho é o que o detém.
E para. E para Firmín olha.
E Dom Javier tonelada e meia de touro está postos à frente desse de cabelos vermelhos, espada na mão, escárnio às costas, esse Firmín.
E Firmín aperta a lança com a urgência dos vingadores.
E Dom Javier expõe sua jugular à mercê da espada de Firmín. E lhe vem taurina ereção.
E Firmin não suportando o presente que a Providência, ¡essa desgraçada!, lhe dá, mira, apruma e vai enterrar a espada contra o pescoço eterno daquele touro, aquele Dom Javier.
Esse Dom Javier, que desvia com os chifres a espada, que investe contra Firmín, que joga o matador pelos ares, que calca seus cascos sobre suas pernas finas e que escolhe no derradeiro instante não matar a mão em que fode e que crava enfim as pontas dos chifres sobre a sarja cerúlea varando rasgão nos flancos flácidos e róseos de Firmín, que nunca seria mais que apenas Firmín, o pelirojo, o desprezado, até que Nuestra Señora de la Buena Muerte viesse lhe resgatar dessa sina de humilhação (e isso seria só depois de muitas e muitas tardes desgostosas a recolher o sêmen do incontornável touro Don Javier Ercarnación de la Imaculada Concepción Juez y Ruiz, maior miúra de Cabezón de Pisuerga e Valoria la Buena quiçá de León).

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Conto final (Alexandra)

Maio 28, 2009 · 1 Comentário

Plaza de Toros

Meu personagem é feito de espanto.
Manabu, 11 anos, de férias com a família em Madri.
Entre fascinado e assustado, ele chega o mais perto que pode da arena.

No centro, o touro
a bailar nos cascos sua dança de morte,
batendo no chão com as patas, a agitar a cabeça.
Os olhos em fogo.

Por alguns segundos, o touro para.

Seus olhares se cruzam, o do touro e o do menino.
E atrás das chamas do olhar do touro,
o menino percebe medo e incompreensão.
E atrás de tamanha fortaleza, Manabu vê um bicho acuado.
E entende que aquele espetáculo não tem graça para o touro.
Ele não quer estar lá. Ele não está lá porque quer.

Uma capa bordada orna as vestes do toureiro.
Um manto de sangue e banderilhas cobre as costas do touro.
O menino fecha o casaco até o pescoço
e vibra quando o chifre acerta a calça do matador
deixando exposto um naco de bunda descarnada.

A cada espeto fincado na pele, o menino vê a raiva dos homens aumentar tomando conta do corpo do touro. E o menino pensa que o toureiro domesticou a raiva transformando-a em arte. É o que ele acha que significa toda aquela cena, com lanças, farpas, capote, punhal, braços e pernas coreografados. Pensa também que o homem não vê o touro, porque se o visse não seria toureiro. E que o touro não vê o homem, porque se o visse o mataria em minutos. Porém, não o faz. Seu opositor é um pano de cor vermelha. Ele, um animal. Manabu quer gritar para o touro: Mata! Mata! Se não, vão matar você. Mas o menino não tem coragem e se encolhe de vergonha por estar ali.

Do olhar ferido do bicho, nasce no menino o medo de um dia ser ele também um touro numa arena rodeado por gritos. Um touro que duela com a morte em passos rápidos a arriscar novo ataque, os chifres a cortar o ar e o sangue que pinga a desenhar no chão de barro essa história. Em vão.

Certeira, a espada penetra no dorso do touro que cai.

Está morto.
Feito o Sacrifício, as pessoas aplaudem.
Hoje não precisam matar ninguém.

Manabu vai embora com a morte entalada na garganta.
Pois para contar o que viu, para falar novamente da coragem do touro,
será preciso que cuspa o sangue.

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Conto final (André)

Maio 28, 2009 · Deixe um comentário

Maldade, no bom sentido
ou
A autófaga

Cheguei atrasado e deparei-me com a mãe do Moisés apertando e mostrando para a repórter o seio esquerdo, de onde saía um jato forte de leite que ia enchendo um galão vermelho. Os peitos desagradavelmente grandes da mãe do Moisés. Aquela cara estranha. Dez anos. Apesar do tempo, ela me reconheceu na hora.
Não sabia que você tinha virado fotógrafo, Jurandir. Sorriu, pegou um copo, pôs o galão de lado e apontou o jato para dentro do copo, que encheu. Tá quentinho, Jurandir, bebe. Era meio salgado, mas era bom. Lembrava, talvez, as caixinhas azuis de leite Longa Vida da infância.
Já estávamos só os dois. Eu, concentrado nas fotos. Depois eu quero que você aperte bem gostoso. Perguntei o que ela tinha dito, mas ela apenas riu.
Então era ela: Marlene, a autófaga. Os peitos enormes que nunca secavam, a incrível mulher auto-suficiente, que se alimentava do próprio leite e nada mais. Uma história que certamente pararia no programa da Luciana Gimenez. Ela era uma atração de circo. Uma mulher feia. Horrível. Quase deformada. Apesar disso, não pergunte como, algo nela mexia comigo. Havia um eletromagnetismo ali.
Enquanto ajustava o fotômetro, senti um pinga-pinga na testa. Achei que fosse cocô de passarinho, desviei, mas o jato agora vinha na boca, certeiro, ela rindo e espremendo o peito na minha direção.
Foi aí que a Marlene disse que dos nossos amiguinhos da época, só eu e o Moisés – que era seu filho –, não tínhamos mamado nas suas tetas. Quer dizer, o Moisés também tinha. Mas em outro contexto, naturalmente. A molecada chupava os peitos dela na maldade – maldade no bom sentido.
Parei para mexer na objetiva. Ela se aproximou e começou a esfregar os peitos na minha cara. Disse que eu tinha me comportado mal. Que eu ia ficar de castigo. Eu, quieto, soterrado naquelas carnes. Ela ria. E me chamava de canalha, de safado, de comunista. Segurei então um dos seios com vigor, mas ela me empurrou e disse que eu terminasse logo aquilo. Subitamente mal humorada.
Constrangido, pedi que ela o segurasse o galão vermelho e apertasse um dos seios, lançando um jato na minha direção. Lembro-me do momento exato da foto que acabou indo para a capa da revista. Ela me dizendo entredentes: termina logo, que depois tem mais. Perguntei o que ela tinha dito, mas ela apenas sorriu um sorriso que não tinha nada de sensual; a expressão era livre, solta. Não sei o que Alberto Korda sentiu quando enquadrou Che Guevara naquele funeral em 1960. Mas acho que senti algo parecido.  Aquela imagem era o meu desejo de acelerar o tempo. Ou, talvez, eternizá-lo à minha maneira.

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Conto final (Vera)

Maio 28, 2009 · Deixe um comentário

Sem retoques

Beto, meu bom amigo,
Queria demais que você estivesse aqui. Está sendo muito duro para mim e sinto falta da sua lógica e da sua racionalidade para tornar as coisas mais claras e achar alguma justificativa para tudo isso. Não consigo pensar em destino, só consigo pensar nos meus erros, nas coisas que não fui capaz de ver e da mágoa que deixei somar-se às coisas que vi e não dei atenção. Ah, Beto, a minha falta de atenção.
Você viu a minha estória com o Franklin nascer. Sabe de todas as dificuldades, os ciúmes, as diferenças, as cobranças. Sabe das vezes que procuramos ajuda juntos porque o amor dele era intenso demais para mim e tomava todas as horas em que estávamos juntos e também aquelas em que eu estava longe dele. Sabe, também, das dificuldades que eram só dele (e eram mesmo só dele?). Pois é, Beto, mas eu estava cheio do controle, do ciúme. E fui entrando cada vez mais na onda do Dr. Marco Antonio, na teoria do jogo, da manipulação, do inferno pré-fabricado do Franklin. E tinha a fala infantil do Franklin quando a gente brigava. Eu estava cheio. Eu estava cheio dele me perguntar se eu não gostaria que ele pusesse silicone ali nos seios ou na bunda para ficar mais redondinho, mais apetitoso. Eu não agüentava mais dizer que não, que eu o amava e o desejava do jeito que ele era. Magro e tesudo na masculinidade do seu corpo entalhado a facão.
Eu nunca fui santo, mas sempre escondi as minhas aventuras. Não havia porque magoá-lo. Mas aconteceu de eu me envolver além da conta com a Rose aquela mulata linda que mora no apartamento colado no meu, e foram várias vezes. O Dr. Marco Antonio pode dizer que eu cometi um ato falho quando baixei a guarda e uma distração minha permitiu que o Franklin me visse com a Rose. Foi um só um beijo que ele viu, mas ele viu minhas mãos amassando os peitos grandes da Rose e meus olhos fechados. Ele não suportou aquele beijo de olhos fechados e mãos espalmadas.
A foto, que estava junto com o bilhete fui eu que tirei, no quintal da casa da mãe dele, há cerca de dois meses. Ele a modificou até o grotesco, com requintes de detalhes como as unhas feitas e as mãos delicadas, jogando a Rose na minha cara de um jeito que foi um jeito de me deixar vazio. Achou que eu procurei a Rose porque faltava algo nele, e me deixou, assim, faltando algo em mim.
O Dr. Marco Antonio nem tentou se justificar. Disse que o Franklin não ia às consultas há mais de um mês. Disse também que eu devia procurar ajuda para mim, que era hora de eu pensar em mim. Eu não paguei aquele incompetente para ele discursar para mim palavras de consolo e de seguir adiante.
Meu querido Beto, a única coisa que consigo pensar desde então foi que eu vacilei muito e que o filho da puta do Franklin se matou. Junto com a foto deixou um bilhete escroto dizendo que ia encher os balões de gás. Palhaço. Foi encontrado com a cara dentro do forno. Filho da puta. Filho da puta do Franklin. Ele queria que eu sentisse a falta dele. E eu sinto tanto, Beto, tanto…
Estarei em casa às dez. Me liga pelo Skype. Muita saudade e necessidade de você.
Beijo carinhoso,
Ronaldo.

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Conto Final (Maria)

Maio 28, 2009 · Deixe um comentário

De tudo se vê em terras estrangeiras. As diferenças culturais estimulam a curiosidade, a troca, porém algumas causam bastante estranheza. Naquele país muito distante do meu aprendi deveras com as diferenças. Nada me marcou tanto como o meu encontro com Oléia. Vinha eu de um país tropical, onde o culto à beleza é parte fortíssima da personalidade de seus habitantes (sim, porque até os estrangeiros, com o passar dos tempos entram nessa espiral carcerária do culto ao belo, ao corpo perfeito, esbelto e firme), daí o espanto incial. Foi um grande choque perceber que aquela mulher, simples, que a princípio me lembrou um homem, com um rosto bem masculino, fosse justamente a representante máxima de fertilidade e abundância naquela terra distante, reverenciada até.
Um pouco nervosa, e com a ajuda do intérprete que a embaixada me indicara, busquei na bolsa as duas máquimas fotográficas que levei na viagem para ter registros novos, rápidos com a digital, e granulados com a antiga e ótima Laika.
Oléia tinha um dos sorrisos mais orgulhosos que encontrara até aqui nessa viagem que já durava 50 dias. Os seios, os maiores do mundo, na hora assim me parecera, mal cabiam no vestido que poderia bem ser da Cinderela, um corte princesa que nem combinava com a endumentária local, uma coisa a me confudir as ideias já lotadas de tantas observações. Quando fui entrevistá-la se deu a estranheza maior: Oléia era a responsável por estar sempre com as úberes em potência máxima, sempre a procriar para ter a honra de alimentar a família abastada da qual era serviçal, e isso a enchia de orgulho e pompa.
Aqueles seios horrorosos à minha vista nada mais era que um sinônimo de grande deferência, um destino ambicionado por muitas, e realizado por poucas. Como Oleía eram apenas 90 em todo o país, e desde meninas eram educadas para tal função, que entre outros treinamentos, um era o de estica e puxa das mamas, para serem assim funcionais e gigantes. Sua função era encher aquele grande pode de leite para dar aos filhos de seu amo e dono,  poligâmico, como de costume, e o seu amo tinha mais de 20 mulheres e cem filhos! Seu amo era riquíssimo, ela me contara, exultante.
Cabia a Oléia ser a mantenedora de aleitamento de boa parte dos filhos de seu amo, assim como outras 9 de úberes abastadas, um desígnio divino que as encheia de status, algo tão impensável para mim, uma fotográfa jovem, sem filhos, magra e sempre de dieta. Meu encontro com Oléia foi um dos pontos mais marcante de minha viagem a trabalho àquelas terras tão distante da minha e de meus costumes.
Oléia, depois de um pouco ressabiada em ser fotografada, porém ciente de sua importância naquela sociedade, se soltou de tal maneira que pude sacar mais de 3 rolos de filme, em âlgulos variados, do maior peitão que já vira em minha vida. Feliz, dentes à mostra e os incríveis peitos também, me deu a oportunidade de refletir minha essência, e a cultura estóica de minha terra em relação a um padrão de beleza que vem mais de fora do que dentro, ou de uma funcionalidade. Durou menos do que 1 hora o nosso encontro, e eu jamais a esquecerei.
Com o pensamento a mil, entrei numa das melhores casas de chá do lugarejo, onde, aliáis sorvi um dos melhores chás de minha curta existência, e caí de boca em todos os doces exóticos da casa. O que me deu, claro, uma baita dor-de-barriga que me obrigou a voltar correndo ao hotel, onde logo depois adormeci, e sonhei que era uma mulher metade vaca, metade fêmea a aleitar as muitas bocas famintas do mundo. Dormi como um anjo!

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texto livre

Maio 26, 2009 · Deixe um comentário

Desciam de mãos entrelaçadas a avenida principal do bairro onde viviam, mãe e filha. O andar cadenciado, tranqüilo, uma a olhar a outra de vez em quando, ora em silêncio, ora em conversas, frases descompromissadas. A face rosada da garota, o passo saltitante, o rosto vira pra cá e lá, a sobrancelha num arco maior, ouve da mãe:<?xml:namespace prefix = o ns = “urn:schemas-microsoft-com:office:office” />

- Dá para pensar um pouquinho mais alto, minha linda? Estou quase ouvindo o seu pensamento!

A garota ri, marota, sem espanto, sabedora que a mãe era dada a essas percepções.

- nãnãnãnãninãnão, e ria, vai ter que adivinhar assim mesmo, nesse volume, bem baixinho, jogava os cabelos para trás das orelhas, caindo na gargalhada, os olhos brilhantes e úmidos.

De natureza bastante curiosa, a mãe olhava atentamente a cada detalhe do rostinho da filha, que continuava com o jogo de adivinhação.

- Duvideodó que você acerte desta vez, fiz uma barreira agora e nunquinha que a vai acertar. Se não acertar ganho um picolé cremoso, não o de frutas, o cremoso, de chocolate da padaria lá embaixo.

Os passos seguiam ladeira abaixo, a rua chegando á praça, enchendo de gente, e assim ficava mais difícil, em meio ao burburinho e pensamentos ouvir justamente o da filha. Havia algo de engraçado no pensamento dela que estava expresso em sua face, os olhos divertidos, nuances no canto da boca, levemente esticado, que davam mais e mais pistas do que se tratava…porém com tanta gente a concentração sumia, era sempre assim.

Caros Colegas, segue o texto da semana passada. bjs, Maria

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Conto livre

Maio 25, 2009 · Deixe um comentário

Chegou correndo. Estava atrasada. Entrou desajeitada, a mochila escorrendo de seu ombro, o cabelo no rosto suado. Entrou e parou. Ainda não havia ninguém lá. A sala ampla em tábuas corridas tinha um ar imponente, com pé direito alto, grandes janelas abertas para o jardim. No centro, um tablado com uma cadeira de madeira em cima e muitas outras em volta. Os alunos começaram a entrar. Ela encolheu-se num canto, um tanto tímida, como se todos os olhares estivessem voltados para ela em análise. Quando o professor chegou, cumprimentou a turma e procurou em volta até deter-se na quina onde ela estava. Sorriu meneando a cabeça, olhando-a de cima a baixo. Ela se aproximou. Você é a…? Sou, sim. D. Manuela me mandou… O banheiro é ali. Pode deixar suas roupas lá. Quando voltou, o professor acabava de explicar o exercício. Ela parou ao seu lado sem saber como se portar. O professor, percebendo a hesitação, conduziu-a pela mão até em cima do pequeno palco, pediu que se sentasse e tirasse a toalha que envolvia seu corpo. Com recato nas mãos, ele a posicionou sentada na ponta da cadeira, pés no chão, pernas delicadamente abertas. O corpo reclinado para frente deixando a cabeça pender para baixo, os cabelos soltos em pequenos cachos, a mão esquerda abraçar a pele do pescoço nu, um braço dobrado como asa aberta ao voo, o outro braço esquecido no espaldar da cadeira.

Ela sentiu alivio por saber protegido o seu rosto. Na pose em que estava, conseguia ver apenas partes do próprio corpo e o chão. Era incomodo. Talvez não conseguisse se manter assim por muito tempo. Ouviu o movimento dos alunos a ajeitar os cavaletes, o farfalhar dos papéis, o silêncio que precede o ataque. O som do carvão sobre a folha branca fechou seus olhos e levou-a a imaginar. Que parte de si estaria sendo desenhada? Joelho, dedos, umbigo? Sentiu-se tocada nas costas, o lápis descendo da nuca até a bunda, num traço firme e quente. Outra mão, mais ávida e leve revelou rapidamente o contorno de suas coxas, perdendo-se em negros rabiscos. Os dedos a espalhar com delicadeza a cor sobre o papel agora úmido e denso. Seu corpo medido, estudado, delineado por desconhecidas mãos. Lembrou da sensualidade infinita das banhistas de Degas e da beleza de texturas e gestos de Klint. Mas desejou se ver desenhada por Dali, ao pressentir em seu peito um número infinito de gavetas e respostas. Seu pescoço doía levemente. Durante a tarde, entregou-se à sensualidade de Schiele e amou Francis Bacon e seus corpos e almas rasgados. Vísceras expostas no açougue e na sala de estar. O que vêem em mim? Ou antes, o que de si vêem em mim e tentam traduzir? Ou mais, o que em si buscam e em mim refletem como um espelho às avessas? Minha figura se transformará, se desfigurará? Meu corpo recomposto por tantos outros eus mostrar-me-á algo de novo? Será desvendada minha mais íntima imagem em algum destes desenhos?

Quando o tempo acabou, os papéis foram guardados nas pastas. Outra vez vestida, ela não se verá jamais.

Alexandra

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Era Vidro e se Quebrou…

Maio 23, 2009 · Deixe um comentário

O anel que tu me deste, era vidro e se quebrou,

 o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.

 

Nossa! Já são sete horas da manhã!!! E eu, continuo aqui, sobre a bancada da pia.  Sei o que me espera… É só Jairo acordar. E vou direto para a lata do lixo!  Ontem, foi uma noite tão estranha… Uma noite de terror para um simples copo!  Eu quebrei mil pedacinhos.  E estou morrendo… Nada mais corriqueiro e sem graça do que isso. Um copo que quebrou.  Mas sinto uma sensação tão estranha…  Um peso de morte violenta. Por que não caí acidentalmente como qualquer copo ordinário?  Preciso lembrar…  A última coisa que lembro é do rosto de Elvira… 

 

Elvira cantarolava. Jairo estava tenso e aborrecido com ela. Não sei o motivo. Jairo me pegou na prateleira para beber uma cerveja. Não gostei… Nem ofereceu para ela.  Sentou-se em frente à televisão e me colocou perto, ali no chão.  Não disse uma palavra.  Eu fiquei ali, gelando… Eu estava menos frio do que ele.  Elvira sentou pertinho dele, fez um carinho.  Ele não retribuiu. Olhava para ela com um olhar gelado, possesso e cortante. Elvira se afastou, começou a tirar e botar o anel, que era um presente de Jairo.  Ele me pegou do chão, me segurou com a mão direita e não largou mais.  Elvira tirava e botava o anel com rapidez e nervosismo.

 

Jairo me segurou com muita força, mais força e começou a me estrangular.  Sufocava Elvira com seus olhos de gelo e a mim, com suas mãos firmes.  Meu Deus… Previ meu fim quando ela finalmente tirou o anel, passando de mão para mão.  Jairo não disse nada.  Foi me apertando, apertando, sufocando, sufocando.  Não gritei porque sou copo, mas Elvira deu um grito de pavor – Aiiiiiiiiiii … Jairo, suas mãos… Você está sangrando… O copo, o copo!!! O que é isso? Ela então se aproximou dele devagar. Ele puxou a mão com violência e não deixou Elvira ver o ferimento. Jairo me atirou no chão com força, longe dela e foi buscar outro copo e outra cerveja.  Ela jogou o anel contra a parede, pegou uma pá e começou a me catar.  A casa ficou em silêncio…

 

Quase de manhã, quando o dia clareou, Elvira colocou os restos do pobre anel ao meu lado e foi embora. 

 

Lembrei agora…  Senhor das coisas inanimadas, faço um último pedido antes de morrer e virar lixo.  Tive uma noite de horror.  Quando me triturarem, e eu adquirir outra forma, quero ser uma jarrinha, um frasco de perfume, até um copinho qualquer, mas não mereço reencarnar num vagabundo anel de vidro…

 

 

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